Era uma noite de sábado quando aquela mensagem chegou no celular.Eu que já tinha checado as possibilidades de programas para aquela noite,selecionei as que mais me satisfaziam os objetivos mais urgentes,ainda me adaptando à minha recente condição de homem solteiro.A regra que eu havia estipulado pra mim era: quanto mais eu saísse,quanto mais eu visse pessoas,revisse conhecidos e conhecesse outras pessoas novas,melhor seria para espantar a solidão,ou pior ainda,reencontrar meus medos na solidão do quarto,do carro, ou em algum momento entre o virar de uma página e outra de meus grandes companheiros naquele mês:Caio F e Bukowiski.O velho Buk me fazia sentir vivo,pulsante,viril,forte de novo,e me fazia achar que ser um loser até que tinha seu lado divertido.Caio não,esse me lembrava que eu ainda era um cara de coração despedaçado e,quanto mais eu olhasse isso de frente,mais extirparia aquilo de mim. No equilíbrio dos dois eu me encontrava.O problema era no virar da página, no intervalo entre uma página e outra.Naquele segundo é que morava o perigo.
Comparadas as programações, reparei que aquela mensagem trazia algo de especial. Era uma festa de despedida para uma pessoa que gosto e admiro. Pensei que por ele valeria a pena me esquecer um pouco.Aliás,quem tinha me mandado a mensagem era tão querida quanto ele:a moça do olhar avassalador e doce e perfume perfeito.Então decidi: chegaria lá mais cedo,teria a companhia daquelas duas pessoas interessantes,e depois sairia por ai, fugindo um pouco de mim de novo,procurando me encontrar em outros abraços, outros sons,outros silêncios,outras cores,outras bocas.Funcionaria como um programa de começo de noite.
Liguei o carro e,no play,Morrissey,outra infaltável companhia,já me esperava com suas asas quebradas.Deslealmente,saquei-o de lá e coloquei o cd do Justice (aquele da cruz), eu tinha que entrar no clima de sábado à noite.
Chegando lá, o numero de pessoas era bem menor do que eu esperava para uma festa de despedida.Isso, supostamente tornaria mais fácil a minha saída. Cumprimentei todos com um boa noite,dei um abraço no meu amigo e na minha amiga,aos outros dei o mais cordial sorriso que tinha guardado pra ocasiões mais sociais. Eu não sou muito bom nisso.
Sentei e comecei a correr os olhos pela mesa,dessa vez reparando com calma quem estava lá.Era realmente uma mesa de gente diferente,eu não conhecia alguns,reconheci outros de situações onde estivemos juntos no mesmo espaço, mas não nos falamos,não fomos apresentados,e por último,pra minha total surpresa,reparei que ela estava lá, aquela por quem tinha abandonado a companhia de Morrissey,Bukowiski e Caio F. para poder lê-la e ouvir a música de sua voz de veludo ao longo daqueles anos juntos.Já havia algum tempo que eu não a via.Um breve silêncio profundo me invadiu,fiquei suspenso no ar por alguns instantes e disse pra mim mesmo:aquela noite prometia fortes emoções.
Meu inquieto amigo,como sempre com suas tiradas Wildianas espirituosas, logo disparou de sua metralhadora a sua tradicional ironia fina.Em algum momento,uma outra figura muito simpática pegou a bala no ar disparada pelo meu amigo e atirou nela com precisão milimétrica. Começou então um campeonato de ironias finas,aforismos,rompantes de cada um dos presentes. Logo a mesa tinha virado um saloon de filme western americano,com todos na mesa contribuindo.Sabe-se se vale à pena ficar numa mesa pela quantidade e qualidade das gargalhadas que se tem.Àquela altura,eu já estava convencido que aquela mesa era uma dessas.
Nessa hora fui reparar quem era a anfitriã.Grosseria minha vocês talvez pensem,mas há um atenuante na minha gafe: a anfitriã era de uma simpatia e com um talento tão grande em receber e acolher quem estava ali,que até se confundia com todos os outros,parecia que a casa era de todos de tão calorosa que ela era.E,convenhamos: isso é uma arte para poucos.Boa parte acha que basta selecionar os vinhos mais caros,os queijos importados, prataria fina,a mesa farta,e está garantida a satisfação dos convidados. Ledo engano.Se tudo isso não vier de um anfitrião que tenha o sorriso que te faça sentir acolhido,a simplicidade que te faz sentir confortável,a diplomacia elegante que te faz sentir bem-vindo.Sem isso,o vinho azeda,o queijo derrete e na mesa sobrará a comida farta,porque acolhimento é a mais rara das etiquetas.É a peça mais nobre da prataria da casa.
E de repente, estávamos todos ali a degustar a presença agradável um do outro.Também degustávamos boa música(mais alfinetadas irônicas),boa comida, boa conversa,boa ambiência á beira daquela piscina.Mas se estivéssemos em qualquer outro lugar o resultado seria o mesmo: sentir-se bem.
Subitamente, chegaram ao ambiente duas companheiras cuja presença somou mais ainda àquela mesa,que àquela altura parecia a própria piscina,de tão confortável e agradável.Meu amigo,sabendo da defesa de uma tese da socióloga(uma das companheiras) sobre determinado tema,pediu esclarecimento sobre o mesmo,pois achava que aquela discussão,além de esclarecer seus próprios questionamentos pessoais,também seria relevante para a mesa.E acertou em cheio.A moça socióloga colocou seu tema com tamanha paixão e propriedade, sem em nenhum momento parecer que estava dando uma aula ou cair no “cabecismo” hermético.Isso só incendiou a mesa com mais discussões, divergências,dúvidas,conclusões. E de repente lá estavam todos discutindo Lacan,Freud,Jung,sexualidade,espiritualidade,música,comportamento,arte, literatura,como quem discute novela,futebol.Aliás,como deveria ser: simples, agradável.Porque para se discutir idéias inteligentes não precisa ser uma coisa pedante,distante,descontextualizada da realidade,ao contrário.É possível sim falar de assuntos aparentemente complexos em uma mesa,dependendo muito da disposição de quem os apresentade quem os fala, como de quem os ouve.Caso contrário estaríamos fadados eternamente à banalidade em todas as conversas. Instalou-se então uma empatia, um sentimento de comunhão,de pertencimento,como a muito tempo eu não experimentava,ao ponto de eu esquecer como a possibilidade daquele reencontro com ela me assustava,a moça que me afastou dos livros,de Morrissey,de Caio F, para me consumir no fogo fátuo da paixão.
Num dado momento, reparei como o grisalho do meu novo amigo lhe caia bem, como a maturidade de nossa anfitriã não lhe roubaram a beleza e a graça de mulher,de como o preconceito é ridículo,insignificante e frágil de morrer estrangulado na cumplicidade de duas mãos,indiferente a como a sociedade enxergue quem se toca.Pude ver como depois de tantos anos,o meu amigo de adolescência ainda trazia o mesmo ar de garoto rebelde,de infant terrible, de Rimbaud debochado,e,de como aquela com quem dividi sonhos por quase 5 anos e com ela tive um filho,continuava com aquele olhar nobre,quase aristocrático,de como a sua magreza cada vez mais evidente lhe acentuava os ossos da face,mas não conseguiram ocultar aquele rosado saudável que lhe vestiam a pele branca e o jeito de menina sem ventura,de princesa sem corte.Tudo isso naquela mesa, naquela confraria não-planejada,a verdade improvisou-se pra mim.
O que estamos fazendo conosco mesmo?Por que a cada dia nos afastamos mais um do outro?Onde está a subjetividade também necessária nas conversas com os que gostamos e admiramos?Por que temos nos condenado a superficialidade usando a pressa moderna como justificativa para nossas solidões coletivas? Quanta solidão abafada no meio da música alta,quantos olhares famintos em busca da noite descartável e perfeita.Quanta covardia em se arriscar para conhecer os tesouros que o outro tem para nos dar além do corpo.Quanta preguiça.Quanto conforto tedioso.
Meus Deus,já cheguei ao ponto de me sentir culpado,de achar que não vivi o fim de semana plenamente por não ter saído para uma balada repleta de gente,e acabar indo para um show chato,uma festa tediosa,com música ruim, preterindo uma conversa com amigos que talvez pudessem me acrescentar muito mais naquela noite.Eu não estou falando em nos isolarmos em pequenos grupos eternamente, ou que nos night clubs não haja diversão de verdade,ou que a musica eletrônica alta não seja capaz de nos salvar a noite,exorcisando-nos do estresse,da dor,da tristeza através da dança.Eu mesmo adoro boates, música eletrônica,dança,gente e já tive o dia salvo por algum DJ sensível. Estou falando de TAMBÉM nos permitirmos o prazer de sermos profundos, desafiar nossas inteligências com conversas estimulantes,não transformar a vida,as nossas amizades,nossas relações,num download e delete de pessoas e assuntos que não nos consuma mais que 15 segundos.Estaremos nos condenando à superficialidade desse jeito.
Naquela noite, eu relembrei a grande festa que é estarmos na companhia de quem gostamos,de quem admiramos,de quem nos quer bem.Invejei aqueles que tem a sorte de ter uma mão cúmplice na sua,saem na noite e depois voltam pra suas casas para celebrarem-se e banquetearem-se um ao outro.Relembrei a dádiva que é uma conversa que nos acrescente,nos eleve,nos provoque, nos faça ver além do olhar,como disse aquele grande poeta.
Aquela noite ainda me reservaria muitas surpresas,mas,de todas elas,a maior foi descobrir o óbvio,como dizia aquele outro grande poeta,naquela canção inesquecível.A descoberta que nada é mais interessante na face da terra do que o próprio ser humano,e pra isso,é necessário que se vá ao encontro dele,para conhecê-lo, para amá-lo, ou até para odiá-lo.
Dias depois,fui convidado para uma outra confraria,de princípios muito semelhantes,pessoas se reunindo em torno de boa conversa,boa música,pra conversarem,dividirem arte,boa comida,canções,poemas,amenidades, futilidades também,fugindo um pouco da felicidade mecânica,da companhia tediosa,da sentença de colecionar bocas,robóticamente,às vezes bebendo vinhos raríssimos com pressa, a goladas,sem degustarem,sub-utilizando-se vinhos e pessoas.
Então, que venham mais confrarias onde as pessoas possam de fato se conhecerem,ouvirem-se,olharem-se.
Naquela noite, os meus receios sentimentais,as minhas angústias existenciais,foram meros coadjuvantes,soterrados pelas conversas agradáveis,pelas presenças estimulantes.Relembrei então a velha lição: Uma boa conversa pode salvar uma alma.
Eu sempre que posso, te leio, silenciosamente.
ResponderExcluirE sempre me surpreendo.
E sempre tenho saudades.
Beijo doce, 'Trambolho' querido.
Olá querido! fazia tempo que não lia nada teu e como foi bom ter lido esse texto mesmo estando atrasada para ir dormir haha
ResponderExcluirGosto muito do que escreves. Gostei principalmente de teres tocado no assunto de como hoje tudo acontece de forma tão rápida que acabamos querendo experienciar a vida rapidamente também. Tudo se tornou descartável! Os amores, as amizades, os sabores, tudo é fast food. Eu mesma estou cansada dessa falta de comprometimento e no fim fico pensando que a errada sou eu por não viver o agora nos 5 minutos de balada com desconhecidos que não sabem nem meu nome do meio.
Mas enfim! Muito bom encontrar teu blog novamente. Cuide-se!
Fazia tempo que não vinha aqui... nada como uma boa conversa pra melhorar as coisas. Como eu preciso disso!
ResponderExcluir:*